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  • O Efeito Inesperado das Campanhas de Cancelamento nas Redes Sociais: Reflexões Sobre o Caso Maurício e Francisco Teixeira

    O Efeito Inesperado das Campanhas de Cancelamento nas Redes Sociais: Reflexões Sobre o Caso Maurício e Francisco Teixeira

    O Efeito Inesperado das Campanhas de Cancelamento nas Redes Sociais: Reflexões Sobre o Caso Maurício e Francisco Teixeira

    Quando o Cancelamento Produz o Efeito Contrário

    A página Movimento Migratório contava com 422 mil seguidores quando a campanha de cancelamento contra o Maurício começou. Agora está com 425 mil seguidores, ou seja, cerca de 3 mil seguidores a mais.

    Este dado, por si só, merece uma reflexão mais profunda sobre a dinâmica das redes sociais na actualidade. Ao contrário do que muitas vezes se pretende alcançar com campanhas de descredibilização pública, os resultados nem sempre correspondem às expectativas dos seus promotores. Em diversos casos, a tentativa de reduzir a influência de uma determinada figura pública acaba por produzir exactamente o efeito oposto, ampliando a sua visibilidade e despertando a curiosidade de novos públicos.

    Vivemos numa era em que a atenção se tornou um dos recursos mais valiosos da comunicação digital. Sempre que um nome passa a ser amplamente discutido, independentemente do contexto, aumenta também a probabilidade de mais pessoas procurarem informações sobre essa pessoa, acompanharem os seus conteúdos e formarem a sua própria opinião.

    O Crescimento da Visibilidade de Maurício nas Plataformas Digitais

    Parece que a campanha de cancelamento está a promover ainda mais o jovem que denunciou a máfia no activismo angolano que, aliás, muitos de nós já conhecíamos. rsrsrs.

    Quem não o conhece, vai querer saber quem é e por que está a ser cancelado. Só que este fenómeno está a dar-lhe mais notoriedade e sua constante presença nas redes sociais com lives está a fazer o algoritmo jogar a seu favor.

    Este fenómeno não é exclusivo de Angola. Em várias partes do mundo, figuras públicas que se tornam alvo de campanhas de contestação acabam por beneficiar do aumento de exposição mediática. Os algoritmos das plataformas digitais privilegiam frequentemente conteúdos que geram interacções, comentários, partilhas e debates. Quanto maior for a polémica, maior tende a ser o alcance das publicações associadas ao tema.

    Nesse contexto, as transmissões em directo, os debates e as reacções constantes dos utilizadores tornam-se combustível para a expansão da visibilidade digital. O resultado é que muitas pessoas, que anteriormente desconheciam determinado indivíduo, passam a acompanhá-lo apenas para compreender as razões que o colocaram no centro da controvérsia.

    O Papel dos Algoritmos na Construção da Notoriedade

    As redes sociais actuais funcionam através de sistemas complexos que procuram manter os utilizadores activos pelo maior tempo possível. Para isso, os algoritmos identificam assuntos que geram envolvimento e distribuem-nos a um número cada vez maior de pessoas.

    Quando uma personalidade se encontra no centro de uma polémica nacional, cada comentário, reacção ou partilha contribui para aumentar a relevância desse conteúdo. Em consequência, o próprio sistema digital passa a impulsionar a discussão, independentemente de as opiniões serem favoráveis ou desfavoráveis.

    Este cenário demonstra como a comunicação contemporânea ultrapassou os modelos tradicionais de influência. Hoje, a notoriedade pode ser construída não apenas através da aprovação pública, mas também através da controvérsia e da capacidade de permanecer presente no debate social.

    Francisco Teixeira e os Desafios da Credibilidade Pública

    Enquanto isso, apesar do apoio e solidariedade que o Francisco Teixeira tem recebido por parte daqueles que o admiram e o seguem, o ceticismo começa a nascer entre alguns que começam a questionar a integridade do activista. Por conta disto, muitos classificaram a sua recente live num autocarro público como uma fachada.

    Independentemente das interpretações que cada cidadão possa fazer dos acontecimentos, é importante reconhecer que figuras públicas estão permanentemente sujeitas ao escrutínio da opinião pública. Quanto maior a visibilidade, maior também a exigência por transparência, coerência e autenticidade.

    A era digital transformou todos os utilizadores em potenciais observadores, críticos e comentadores. Um simples vídeo, uma transmissão em directo ou uma publicação podem gerar milhares de interpretações diferentes em poucas horas. Por isso, a gestão da imagem pública tornou-se um desafio permanente para activistas, influenciadores, políticos e comunicadores.

    A Responsabilidade dos Jovens Líderes de Opinião

    Como jovem, preocupado com o presente de Angola e os desafios que teremos no futuro presente, entristece-se esse episódio protagonizado por dois jovens angolanos que, de maneiras diferentes, têm inspirado muitos outros jovens.

    A juventude angolana enfrenta actualmente desafios significativos relacionados com emprego, educação, empreendedorismo, participação cívica e desenvolvimento social. Neste contexto, as figuras que conseguem mobilizar e inspirar outros jovens assumem uma responsabilidade acrescida perante a sociedade.

    Quando divergências pessoais ou ideológicas ganham proporções excessivas, existe o risco de se desviar a atenção dos problemas estruturais que realmente exigem reflexão e acção colectiva. O debate público é saudável e necessário, mas deve sempre procurar contribuir para o crescimento da consciência cívica e para o fortalecimento da democracia.

    A Diferença de Ideias Como Elemento Natural da Democracia

    Enquanto seres pensantes e distintos uns dos outros, é normal que haja uma certa discrepância de ideias, desde que não se transforme num guerra que não agrega nada de valor ao país que todos amamos e pelo qual lutamos.

    A diversidade de pensamento é uma característica fundamental de qualquer sociedade livre. O progresso surge precisamente do confronto saudável de perspectivas diferentes, da capacidade de argumentar com respeito e da disposição para ouvir opiniões contrárias.

    No entanto, quando as divergências se transformam em hostilidade permanente, ataques pessoais ou campanhas de destruição reputacional, perde-se uma oportunidade valiosa de construir soluções colectivas para os desafios nacionais.

    Angola necessita de debates maduros, baseados em factos, argumentos e propostas concretas. Mais importante do que identificar vencedores e vencidos em conflitos digitais é garantir que as discussões públicas contribuam para o fortalecimento das instituições, da cidadania e da participação consciente dos jovens na vida nacional.

    Reflexão Final

    O caso envolvendo Maurício e Francisco Teixeira demonstra como as redes sociais se tornaram espaços de enorme influência na formação da opinião pública. Ao mesmo tempo que ampliam vozes e causas, também podem intensificar conflitos e polarizações.

    Os números observados na página Movimento Migratório mostram que as campanhas de cancelamento nem sempre produzem os resultados esperados. Em muitos casos, despertam curiosidade, aumentam o alcance dos conteúdos e fortalecem a notoriedade daqueles que se pretendia enfraquecer.

    Mais do que escolher lados, importa retirar lições deste episódio. Angola precisa de jovens capazes de debater ideias, questionar realidades e propor soluções, sem transformar diferenças de opinião em batalhas permanentes. O futuro do país será mais promissor se a energia investida nos conflitos digitais for canalizada para a construção de uma sociedade mais justa, informada e participativa.


    Por João Bartolomeu Callawey
    Investigador independente da cultura linguística angolana e comunicação digital.

    Wikipedia|✍️ Artigo original para publicação digital
    © Todos os direitos reservados

  • ENTRAM PELA MESMA PORTA, SAEM PARA DESTINOS DIFERENTES

    ENTRAM PELA MESMA PORTA, SAEM PARA DESTINOS DIFERENTES

    ENTRAM PELA MESMA PORTA, SAEM PARA DESTINOS DIFERENTES – MESMA SALA, FUTUROS DIFERENTES

    Naquela manhã, a sala de aula estava silenciosa. As carteiras estavam alinhadas como sempre, os cadernos fechados e o quadro limpo. À primeira vista, tudo parecia normal. Mas bastava olhar com mais atenção para perceber que aquela não era uma sala comum.

    Em cada carteira estava escrito um destino, uma condição ou uma circunstância de vida. Havia a carteira do rico, a do pobre, a do desempregado, a da enfermeira, a do motorista, a do motorista de autocarro, a do solteiro, a do viúvo, a do sem-abrigo, a da ansiedade, a da depressão e tantas outras.

    O mais curioso é que todos estavam na mesma sala.

    A vida é exactamente assim.

    Quando somos crianças, sentamo-nos lado a lado. Vestimos uniformes parecidos, aprendemos as mesmas matérias e ouvimos os mesmos professores. Ninguém sabe ao certo quem será médico, quem será comerciante, quem ficará desempregado ou quem enfrentará dificuldades que os livros escolares nunca ensinaram a superar.

    A escola parece uma pequena amostra da humanidade. Os alunos entram pela mesma porta, mas raramente saem pelo mesmo caminho.

    O rapaz que tirava as melhores notas pode acabar perdido nas encruzilhadas da vida. A aluna tímida do fundo da sala pode tornar-se uma grande profissional. O estudante considerado problemático pode transformar-se num exemplo de superação. E aquele que parecia ter tudo garantido pode descobrir que a vida não distribui os seus prémios apenas pelo talento ou pela riqueza.

    Com o passar dos anos, a sociedade cria o hábito de medir as pessoas pelos resultados visíveis. Observa quem tem dinheiro, quem ocupa cargos importantes ou quem alcançou fama. No entanto, raramente vê as batalhas invisíveis que cada um enfrenta.

    A carteira da ansiedade lembra-nos disso.

    Muitas vezes, ao nosso lado está alguém que sorri todos os dias, mas trava uma guerra silenciosa dentro da própria mente.

    A carteira da depressão recorda-nos que nem todas as dores deixam marcas visíveis.

    A carteira do sem-abrigo mostra que a estabilidade pode desaparecer mais depressa do que imaginamos.

    A carteira do viúvo ensina que algumas ausências jamais são substituídas.

    A carteira do desempregado lembra que nem sempre o esforço encontra recompensa imediata.

    E a carteira da pobreza revela que milhões de pessoas lutam diariamente apenas para garantir aquilo que muitos consideram básico.

    Mas há também as carteiras da esperança.

    A enfermeira que dedica a vida a cuidar dos outros.

    O motorista que transporta centenas de pessoas sem que quase ninguém repare na sua importância.

    Os trabalhadores anónimos que mantêm as cidades em funcionamento enquanto o mundo dorme.

    No fundo, a imagem faz-nos compreender uma verdade simples: a vida não é uma corrida em que todos partem da mesma linha nem chegam ao mesmo destino.

    Cada carteira representa uma história. Cada história representa uma luta. E cada luta merece respeito.

    Talvez o maior erro da nossa época seja acreditar que o valor de uma pessoa está escrito na profissão que exerce, na conta bancária que possui ou no estado civil que apresenta.

    O verdadeiro valor encontra-se na forma como cada um enfrenta as circunstâncias que a vida lhe entrega.

    Afinal, a mesma sala produz futuros diferentes porque as pessoas carregam sonhos diferentes, desafios diferentes e oportunidades diferentes.

    E quando compreendemos isso, deixamos de olhar para os outros com arrogância e começamos a olhar com humanidade.

    Porque hoje podemos estar sentados na carteira do sucesso. Amanhã, talvez na da dificuldade. E depois de amanhã, quem sabe, na da superação.

    A vida muda de lugar as nossas carteiras com uma facilidade que a juventude raramente imagina.

    Por isso, antes de julgar alguém pelo lugar onde está sentado, vale a pena lembrar: todos começámos na mesma sala.

    Por João Bartolomeu Callawey
    Investigador independente da cultura linguística angolana e comunicação digital.

    ✍️ Crónica original para publicação digital

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  • UMA CURIOSIDADE: AS MULHERES TAMBÉM ACEDEM AO XVIDEOS OU ISSO É APENAS COISA DE HOMENS?

    UMA CURIOSIDADE: AS MULHERES TAMBÉM ACEDEM AO XVIDEOS OU ISSO É APENAS COISA DE HOMENS?

    UMA CURIOSIDADE: AS MULHERES TAMBÉM ACEDEM AO XVIDEOS OU ISSO É APENAS COISA DE HOMENS?

    Por João Domingos Bartolomeu

    Quando se fala sobre pornografia na internet, existe uma ideia bastante difundida de que este é um universo dominado exclusivamente pelos homens. Durante muitos anos, a sociedade construiu a imagem de que apenas os homens procuravam conteúdos adultos, enquanto as mulheres eram vistas como completamente afastadas desse tipo de consumo.

    Introdução

    Mas será que essa percepção corresponde à realidade? Será que plataformas como o XVideos, Pornhub e outros sites semelhantes são frequentadas apenas por homens? Ou as mulheres também fazem parte desse público, ainda que de forma mais discreta?

    A resposta pode surpreender muitas pessoas.

    O mito de que apenas os homens assistem pornografia

    Durante décadas, falar sobre sexualidade feminina foi quase um tabu em muitas sociedades. Enquanto o desejo masculino era frequentemente tratado como algo natural, o desejo feminino era muitas vezes ignorado, reprimido ou até condenado.

    Essa diferença de tratamento contribuiu para a criação da ideia de que as mulheres não sentem curiosidade sexual da mesma forma que os homens. No entanto, estudos realizados em diversos países demonstram que as mulheres também procuram conteúdos relacionados com sexualidade, embora os seus hábitos de consumo possam ser diferentes.

    O crescimento da internet apenas tornou mais visível uma realidade que sempre existiu: a curiosidade sexual não é exclusiva de um único género.

    Os números mostram uma realidade diferente

    Diversas pesquisas internacionais indicam que milhões de mulheres visitam regularmente plataformas de conteúdo adulto.

    Embora os homens continuem a representar a maioria dos utilizadores desses sites, as mulheres constituem uma parcela significativa da audiência. Em alguns países, elas chegam a representar mais de um quarto dos visitantes de determinadas plataformas.

    Isso significa que a pergunta não deveria ser se as mulheres assistem ou não a esse tipo de conteúdo. A verdadeira questão talvez seja compreender de que forma elas consomem esses materiais e quais são os seus interesses.

    O consumo feminino costuma ser mais discreto

    Uma das razões pelas quais muitas pessoas acreditam que apenas os homens visitam sites adultos está relacionada com a discrição feminina.

    Em muitos contextos culturais, as mulheres continuam a enfrentar julgamentos sociais quando falam abertamente sobre sexualidade. Como consequência, muitas preferem manter os seus hábitos privados.

    Enquanto alguns homens podem comentar o assunto entre amigos, fazer piadas ou até admitir publicamente que visitam determinados sites, as mulheres tendem a tratar o tema com mais reserva.

    Isso não significa ausência de interesse. Significa apenas que existe uma forma diferente de lidar com o assunto.

    As diferenças de interesses entre homens e mulheres

    Outra curiosidade interessante é que homens e mulheres nem sempre procuram os mesmos tipos de conteúdo.

    Pesquisas internacionais sugerem que muitas mulheres demonstram interesse não apenas pelo aspecto visual, mas também pelo contexto emocional, pelas histórias e pela conexão entre os participantes.

    Por essa razão, algumas preferem conteúdos que envolvem romance, intimidade ou elementos narrativos mais desenvolvidos.

    Naturalmente, estas tendências não são universais. Cada pessoa possui preferências próprias, independentemente do género.

    O impacto da tecnologia na sexualidade moderna

    A internet transformou profundamente a forma como as pessoas lidam com a sexualidade.

    Hoje, qualquer utilizador com acesso a um telemóvel pode encontrar uma enorme variedade de conteúdos em poucos segundos. Essa facilidade alterou hábitos, comportamentos e até mesmo a forma como homens e mulheres exploram a sua curiosidade.

    Ao mesmo tempo, especialistas alertam para a importância do equilíbrio. O consumo excessivo de qualquer tipo de conteúdo online pode afectar relacionamentos, expectativas e a percepção da realidade.

    Por isso, o debate não deve concentrar-se apenas em quem assiste, mas também em como cada pessoa utiliza a internet de forma responsável.

    O peso dos preconceitos sociais

    Apesar da evolução dos costumes, ainda existem muitos preconceitos relacionados com a sexualidade feminina.

    Em diversas culturas, uma mulher que admite assistir conteúdos adultos pode ser julgada de forma mais severa do que um homem que faz exactamente o mesmo.

    Essa diferença revela que alguns estereótipos continuam presentes na sociedade contemporânea. No entanto, à medida que o debate sobre sexualidade se torna mais aberto, essas barreiras tendem a diminuir.

    Compreender que homens e mulheres possuem curiosidades, desejos e interesses faz parte de uma visão mais realista da natureza humana.

    Afinal, é apenas coisa de homens?

    A resposta é simples: não.

    As mulheres também visitam plataformas como o XVideos e outros sites semelhantes. Embora os homens continuem a representar uma parte maior da audiência, os dados disponíveis mostram claramente que existe uma presença feminina significativa nesses espaços.

    A ideia de que apenas os homens consomem esse tipo de conteúdo pertence cada vez mais ao campo dos mitos do que ao da realidade.

    Conclusão

    A sexualidade humana é muito mais complexa do que os estereótipos frequentemente difundidos pela sociedade. A crença de que apenas os homens assistem pornografia ignora uma realidade observada por estudos, pesquisas e pelas próprias mudanças culturais dos últimos anos.

    Homens e mulheres possuem curiosidades, interesses e formas distintas de explorar a sexualidade. O que varia não é necessariamente a existência do interesse, mas a maneira como cada pessoa escolhe expressá-lo.

    Talvez a verdadeira curiosidade não seja saber se as mulheres visitam ou não esses sites, mas compreender porque ainda existe tanta surpresa quando se descobre que a resposta é sim.


    Autor: João Domingos Bartolomeu

  • Mas se nós comer antes do funeral… vamos fugir?

    Mas se nós comer antes do funeral… vamos fugir?

    Mas se nós comer antes do funeral… vamos fugir?

    Introdução: entre o luto e o arroz com feijão da tradição

    Nas famílias africanas, e em particular em Angola, o funeral nunca é apenas um momento de despedida. É também um encontro comunitário, uma reunião de parentes que não se viam há anos, e, inevitavelmente, um momento onde a vida continua a mostrar que não para — nem mesmo perante a morte.

    E no meio das lágrimas, dos cânticos e das palavras de consolo, surge uma realidade incontornável: a refeição depois do enterro. Um costume profundamente enraizado, onde a comunidade partilha comida como símbolo de união, respeito e continuidade da vida.

    Mas há sempre aquela pergunta provocadora, meio séria, meio brincadeira: “Se nós comer antes do funeral… vamos fugir?”

    O funeral africano: mais do que despedida, um encontro social

    Em muitas culturas africanas, o funeral não é apenas o momento de enterrar o corpo, mas sim de reafirmar laços familiares e comunitários. É o instante em que:

    • Os primos reaparecem como se nunca tivessem desaparecido
    • Os tios viram filósofos da vida
    • As avós assumem o papel de narradoras oficiais da história familiar
    • E os jovens tentam manter a postura, mesmo com fome e curiosidade

    Tudo isto acontece sob o peso da dor… mas também sob o calor humano da convivência.

    A comida depois do enterro: tradição, partilha e sobrevivência emocional

    A refeição pós-funeral não é apenas “comida”. É um símbolo. Representa:

    • A continuidade da vida após a perda
    • A solidariedade entre os presentes
    • A ajuda às famílias enlutadas
    • E, sejamos honestos, um alívio físico depois de horas de cerimónia

    Em Angola, como em várias regiões africanas, este momento é tratado com seriedade e respeito. Mas também com uma naturalidade que só a cultura popular consegue explicar: chora-se, ora-se e… come-se.

    E aqui nasce a reflexão inevitável: a vida não espera, nem mesmo no silêncio da morte.

    O dilema humorístico: “Se comer antes do funeral, vamos fugir?”

    A frase, dita em tom de brincadeira, abre espaço para uma reflexão curiosa sobre comportamento humano.

    Imaginemos a cena:

    Alguém chega mais cedo ao local do funeral e pergunta: — “Já há comida?”

    E imediatamente surge o julgamento silencioso dos mais velhos: — “Mas já vieste comer ou vieste chorar?”

    A verdade é que, em muitas comunidades, comer antes do momento certo pode parecer falta de respeito. Como se o estômago não tivesse direito à sua própria agenda emocional.

    Mas, ironicamente, o humor popular responde: “Se comermos antes, talvez o funeral nem comece… porque todos já fugiram do trabalho da dor.”

    Provérbios e sabedoria popular: entre a dor e o riso

    A tradição oral africana está cheia de provérbios que ajudam a compreender estes momentos com mais leveza:

    • “A dor partilhada pesa menos, mas a comida partilhada acaba mais rápido.”
    • “Quem chora de barriga vazia chora duas vezes.”
    • “No funeral, a tristeza entra pela porta, mas a fome entra pela cozinha.”
    • “A morte leva um, mas a comida traz muitos.”

    Estes provérbios mostram que o povo sempre encontrou formas inteligentes de equilibrar emoção e sobrevivência.

    Reflexão: entre o respeito e a humanidade

    O costume de comer após o funeral não deve ser visto apenas com humor ou crítica. Ele revela algo profundo: a necessidade humana de continuar.

    Mesmo perante a morte, as pessoas precisam de:

    • Conforto
    • Comunhão
    • Energia para seguir em frente
    • E um momento de pausa para reorganizar a vida

    O funeral, assim, torna-se paradoxalmente um espaço de morte e de renovação.

    Conclusão: rir não é desrespeitar, é compreender a vida

    A pergunta inicial continua no ar: “Se nós comer antes do funeral… vamos fugir?”

    Talvez a resposta não seja sobre fuga, mas sobre entendimento. Porque nas culturas africanas, rir e refletir caminham lado a lado. O humor não diminui o respeito — ele ajuda a suportar a realidade.

    No fundo, entre lágrimas e panelas, a vida ensina uma lição simples: ninguém foge da morte, mas todos procuram sobreviver ao dia depois dela.

  • GRITOS DE SOCORRO: O SILÊNCIO DA SOCIEDADE MODERNA DIANTE DO SOFRIMENTO HUMANO

    GRITOS DE SOCORRO: O SILÊNCIO DA SOCIEDADE MODERNA DIANTE DO SOFRIMENTO HUMANO

    GRITOS DE SOCORRO: O SILÊNCIO DA SOCIEDADE MODERNA DIANTE DO SOFRIMENTO HUMANO

    Introdução

    O termo “gritos de socorro” ultrapassa o sentido literal de um pedido de ajuda audível. Na sociedade contemporânea, ele representa sinais silenciosos de sofrimento emocional, psicológico e social que muitas vezes passam despercebidos.

    Vivemos numa era de comunicação constante, mas paradoxalmente marcada por uma crescente incapacidade de escutar o sofrimento do outro.

    O significado dos “gritos de socorro” na sociedade atual

    Os gritos de socorro modernos nem sempre são audíveis. Eles manifestam-se através de:

    isolamento social

    depressão silenciosa

    ansiedade constante

    comportamentos de autodestruição

    pedidos indiretos de ajuda

    Muitas vezes, estes sinais são ignorados ou mal interpretados, criando uma barreira entre quem sofre e quem poderia ajudar.

    A indiferença como fenómeno social

    Um dos factores mais preocupantes da sociedade moderna é a normalização da indiferença.

    A rotina acelerada, o excesso de informação e o foco individualista contribuem para que muitas pessoas deixem de reconhecer o sofrimento alheio.

    Esta indiferença não é necessariamente maldade — muitas vezes é sobrecarga emocional e falta de tempo — mas o resultado é o mesmo: silêncio diante do sofrimento.

    A solidão no meio da multidão

    Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sozinhos.

    As redes sociais criaram uma ilusão de proximidade, mas não substituem o contacto humano real. Muitas pessoas vivem rodeadas de gente, mas sentem-se completamente invisíveis.

    Este fenómeno intensifica os “gritos de socorro silenciosos” que raramente são percebidos.

    Saúde mental e sinais ignorados

    A saúde mental tornou-se um dos maiores desafios contemporâneos.

    No entanto, muitos sinais de alerta continuam a ser ignorados, tais como:

    mudanças bruscas de comportamento

    isolamento progressivo

    perda de interesse pela vida social

    expressões constantes de cansaço emocional

    A falta de atenção a estes sinais pode agravar situações já críticas.

    O papel da sociedade e da empatia

    A empatia é um elemento central para reduzir o impacto destes “gritos silenciosos”.

    Pequenos gestos podem fazer diferença:

    ouvir sem julgar

    estar presente emocionalmente

    reconhecer sinais de sofrimento

    incentivar a procura de ajuda profissional

    Uma sociedade mais atenta reduz o número de pessoas invisíveis emocionalmente.

    Conclusão

    Os “gritos de socorro” da sociedade moderna nem sempre são audíveis, mas estão constantemente presentes.

    Ignorá-los não faz com que desapareçam — apenas os torna mais profundos e silenciosos.

    A responsabilidade colectiva passa por desenvolver mais empatia, atenção e humanidade nas relações quotidianas.

    Autoria

    Por João Bartolomeu Callawey
    Investigador independente da cultura linguística angolana e comunicação digital.
    Wikipedia
    Artigo original para publicação digital
    © Todos os direitos reservados

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