ANGOLA REDEFINE A SUA POLÍTICA EXTERNA E REDUZ DEPENDÊNCIAS HISTÓRICAS, AFIRMA INVESTIGADOR
Por João Domingos Bartolomeu
Introdução: Uma Nova Fase da Diplomacia Angolana
A política externa de Angola atravessa um dos momentos mais significativos desde a independência nacional. Sob a liderança do Presidente João Lourenço, o país tem procurado reposicionar-se no cenário internacional através de uma estratégia que privilegia a diversificação de parcerias, a redução de dependências históricas e a afirmação de uma maior autonomia diplomática.
Segundo o investigador Rui Verde, associado ao Centro de Estudos Africanos da Universidade de Oxford, Angola está a redesenhar profundamente as suas relações internacionais, afastando-se gradualmente de alguns parceiros tradicionais e reforçando os laços com novos interlocutores estratégicos.
As declarações foram feitas à agência Lusa por ocasião do lançamento do livro Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), cuja apresentação está marcada para o próximo dia 5 de Junho, em Lisboa.
A análise surge num momento em que a política externa angolana ganha cada vez mais protagonismo, tanto no continente africano como nos principais fóruns internacionais.
O Fim de Uma Era nas Relações com a Rússia
Uma das transformações mais evidentes apontadas por Rui Verde diz respeito à relação entre Angola e a Rússia.
Durante décadas, Moscovo foi considerada uma das mais importantes aliadas de Angola. Desde os tempos da Guerra Fria, a então União Soviética desempenhou um papel determinante no apoio político, militar e ideológico ao Estado angolano, criando uma ligação que perdurou por muitos anos após a independência.
No entanto, segundo o investigador, verifica-se actualmente um claro arrefecimento dessas relações.
“Há um grande esfriamento da relação com a Rússia”, afirma Rui Verde.
Um dos exemplos destacados é o recente julgamento, em Angola, de indivíduos alegadamente ligados ao universo pós-Wagner, grupo paramilitar russo que ganhou notoriedade em diversos conflitos internacionais.
Para o especialista, o simples facto de existirem acusações relacionadas com alegadas tentativas de subversão do regime constitui um acontecimento sem precedentes na história recente das relações entre os dois países.
“A acusação de que pretendiam subverter o regime é uma novidade enorme no contexto das relações entre os dois países”, observa.
Esta situação demonstra que Luanda já não encara Moscovo com o mesmo grau de proximidade política que caracterizou décadas anteriores.
A Relação com a China Entra Numa Nova Etapa
Outro dos pilares da política externa angolana que está a ser revisto é a relação com a China.
Nas últimas duas décadas, Pequim tornou-se um dos principais parceiros económicos de Angola, financiando projectos de reconstrução nacional, infra-estruturas rodoviárias, habitação, energia e diversas obras públicas.
O modelo adoptado baseava-se frequentemente na concessão de empréstimos garantidos por futuras receitas petrolíferas angolanas.
Embora esse mecanismo tenha permitido a realização de importantes projectos de reconstrução após o fim da guerra civil, Rui Verde considera que também gerou consequências financeiras significativas.
“Isto criou condições financeiras graves a Angola”, afirma.
Segundo a sua análise, o Governo angolano procura actualmente estabelecer uma relação mais equilibrada com a China, reduzindo os níveis de dependência financeira e procurando obter condições mais vantajosas para os interesses nacionais.
A intenção parece ser a de preservar a cooperação económica, mas evitando repetir modelos considerados excessivamente dependentes ou desequilibrados.
Portugal Mantém os Laços Históricos, Mas Perde Influência Estratégica
A relação entre Angola e Portugal continua a ser marcada por fortes laços culturais, linguísticos, familiares e económicos.
Contudo, Rui Verde considera que essa proximidade já não se traduz automaticamente em influência estratégica.
Segundo o investigador, Portugal continua presente no quotidiano de muitos dirigentes e empresários angolanos, mas deixou de ocupar o lugar privilegiado que anteriormente detinha na definição das prioridades diplomáticas do país.
“Dois terços dos ministros angolanos têm nacionalidade portuguesa, veem o Benfica e o Porto, vêm comprar vinho e fatos à Avenida da Liberdade. Isso tudo existe. Agora grande investimento, grande interesse estratégico, não existe”, afirma.
Esta observação sugere que, embora as relações históricas permaneçam vivas, a diplomacia angolana passou a procurar oportunidades e alianças muito para além do espaço tradicional lusófono.
França, Espanha, Alemanha e Reino Unido Ganham Espaço
Paralelamente ao afastamento relativo de alguns parceiros tradicionais, Angola tem intensificado as relações com importantes potências europeias.
Entre os países que mais têm beneficiado desta nova orientação diplomática destacam-se França, Espanha, Alemanha e Reino Unido.
A aproximação à França é considerada particularmente significativa. Um dos sinais desta mudança foi a adesão de Angola como observadora à Organização Internacional da Francofonia, decisão interpretada por vários analistas como um gesto político de aproximação ao espaço francófono.
Ao mesmo tempo, Rui Verde entende que João Lourenço demonstra um interesse menos acentuado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização que durante muitos anos constituiu uma importante plataforma de projecção internacional para Angola.
Segundo o investigador, a realidade actual é muito diferente daquela que existia no passado.
“Já não é o embaixador português o ponto de contacto da Europa em Angola, como era no passado.”
Esta mudança reflecte uma estratégia mais ampla de diversificação diplomática e de procura de relações directas com diferentes centros de decisão europeus.
A Busca por Uma Maior Autonomia Internacional
Por detrás destas alterações existe um objectivo central: reforçar a autonomia estratégica de Angola.
A actual política externa procura evitar excessivas dependências de qualquer potência estrangeira e promover uma diplomacia baseada na multiplicidade de parceiros.
Esta abordagem permite ao país aumentar a sua margem de manobra nas negociações internacionais, diversificar fontes de investimento e fortalecer a sua posição em questões geopolíticas relevantes.
Ao adoptar esta postura, Angola procura apresentar-se como um actor independente, capaz de dialogar simultaneamente com diferentes blocos políticos e económicos sem se vincular excessivamente a nenhum deles.
O Papel de Angola na Mediação de Conflitos Africanos
A estratégia de afirmação internacional também se manifestou através do envolvimento angolano em iniciativas de mediação de conflitos no continente africano.
Um dos casos mais relevantes foi a participação de Angola nos esforços diplomáticos destinados a encontrar soluções para a crise no leste da República Democrática do Congo.
João Lourenço assumiu um papel activo nas tentativas de aproximação entre as partes envolvidas, procurando reforçar a imagem de Angola como promotora da paz regional.
No entanto, Rui Verde considera que os resultados alcançados ficaram abaixo das expectativas.
Na sua avaliação, a aproximação do Presidente congolês Félix Tshisekedi ao Qatar e aos Estados Unidos acabou por reduzir a influência da mediação angolana.
“A mediação angolana ficou pendurada”, afirma.
Para o investigador, Angola não dispôs dos mecanismos de pressão suficientes para transformar as negociações num processo mais eficaz.
“Não passou de conversa. Não colocou tropas, não ameaçou com sanções económicas”, sustenta.
Apesar dessas limitações, o esforço diplomático contribuiu para reforçar a visibilidade internacional de Angola e consolidar a imagem do país como interveniente relevante em questões de segurança regional.
João Lourenço e as Ambições no Cenário Internacional
O protagonismo conquistado por João Lourenço em organizações africanas também merece destaque.
A presidência da União Africana e o reconhecimento como Campeão da Paz constituem marcos importantes da sua trajectória internacional.
Para Rui Verde, estes elementos podem abrir caminho para futuras responsabilidades internacionais após a conclusão do mandato presidencial.
“Não indo para um terceiro mandato, sempre pareceu que iria e tinha algum perfil para um cargo internacional”, afirma.
Caso venha a assumir funções em organizações continentais ou multilaterais, João Lourenço poderá dar continuidade ao trabalho de projecção internacional que desenvolveu ao longo dos seus mandatos.
Conclusão: Angola Procura um Novo Lugar no Mundo
A análise de Rui Verde sugere que Angola está a viver uma das mais profundas reconfigurações diplomáticas da sua história recente.
O país procura reduzir dependências históricas, rever relações tradicionais e construir novas alianças capazes de responder aos desafios económicos, políticos e geoestratégicos do século XXI.
O afastamento relativo da Rússia, o reajustamento da relação com a China, a perda de protagonismo estratégico de Portugal e a aproximação a novas potências europeias são sinais claros dessa transformação.
À medida que se aproxima o final do segundo mandato de João Lourenço, uma das suas marcas mais visíveis poderá ser precisamente a tentativa de reposicionar Angola como um actor mais autónomo, diversificado e influente no sistema internacional.
A forma como estas mudanças evoluirão nos próximos anos ajudará a determinar o papel que Angola desempenhará no continente africano e no mundo.
Autor: João Domingos Bartolomeu



