MAIS DE UM MILHÃO DE MOTOTAXISTAS OPERAM EM ANGOLA E MUITOS DESCONHECEM O CÓDIGO DE ESTRADA
O crescimento acelerado do sector dos mototáxis em Angola
A actividade de mototáxi tem registado um crescimento significativo nos últimos anos em Angola, sobretudo nas zonas urbanas e periféricas, onde constitui uma das principais alternativas de transporte para a população. O aumento do desemprego, aliado à necessidade de geração de rendimento por parte de milhares de famílias, fez com que muitos cidadãos encontrassem nas motocicletas uma forma rápida e acessível de garantir o sustento diário.
Actualmente, mais de um milhão de mototaxistas encontram-se registados e controlados em Angola, demonstrando a dimensão económica e social deste sector. Em várias províncias do país, os mototáxis assumem um papel fundamental na mobilidade urbana, facilitando a deslocação de pessoas para escolas, hospitais, mercados, locais de trabalho e outros pontos de interesse.
Falta de conhecimentos sobre o Código de Estrada preocupa autoridades
Apesar da importância crescente da actividade, uma parte significativa destes profissionais exerce a função sem conhecimentos básicos do Código de Estrada, situação que continua a preocupar as autoridades e as associações representativas do sector.
A preocupação foi manifestada pelo presidente da Associação dos Motoqueiros de Transporte de Angola (AMOTRANG), Bento Rafael. O responsável revelou que muitos operadores desconhecem as regras elementares de circulação rodoviária, factor que contribui para o aumento do risco de acidentes e para a ocorrência de comportamentos inadequados nas vias públicas.
O desconhecimento das normas de trânsito não afecta apenas os próprios mototaxistas, mas também passageiros, peões e outros utilizadores das estradas. Questões como a prioridade de passagem, a utilização adequada dos equipamentos de segurança e o respeito pelos sinais de trânsito continuam a representar desafios importantes para uma parte dos operadores.
Infiltração de indivíduos ligados a práticas ilícitas
Outro aspecto destacado por Bento Rafael está relacionado com a existência de indivíduos que se fazem passar por mototaxistas para praticar actos ilícitos. Segundo o responsável, a falta de controlo e identificação rigorosa facilita a infiltração de pessoas que utilizam motocicletas para cometer crimes, prejudicando a imagem dos profissionais que exercem a actividade de forma honesta.
Esta realidade tem levado diversas entidades a defender mecanismos mais eficazes de registo, fiscalização e identificação dos operadores, permitindo distinguir claramente os profissionais legalizados daqueles que actuam à margem da lei.
Medidas da AMOTRANG para melhorar a organização do sector
Segundo Bento Rafael, a associação está a implementar um conjunto de medidas para melhorar a organização do sector, reforçar a identificação dos profissionais e promover acções de formação sobre segurança rodoviária e ética profissional.
Entre os objectivos destas iniciativas encontram-se a redução dos acidentes de viação, a melhoria da qualidade do serviço prestado aos passageiros e a valorização da profissão de mototaxista. A aposta na formação contínua poderá contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de responsabilidade e respeito pelas normas de trânsito.
A criação de bases de dados actualizadas, a emissão de cartões de identificação e a realização de campanhas de sensibilização são algumas das estratégias consideradas importantes para fortalecer o sector.
Mototaxistas pedem maior acompanhamento e capacitação
Apesar dos esforços anunciados pela associação, alguns mototaxistas consideram que a AMOTRANG ainda está distante dos problemas enfrentados diariamente pela classe. Muitos defendem um acompanhamento mais próximo, maior fiscalização e a implementação de programas permanentes de capacitação profissional.
Os operadores entendem que uma melhor organização do sector poderá contribuir para a valorização da actividade e para a redução dos casos de criminalidade associados ao uso de motociclos. Além disso, acreditam que a formação adequada pode melhorar significativamente a relação entre os profissionais, os passageiros e as autoridades.
Em diversas comunidades, os mototaxistas desempenham funções que vão além do simples transporte, assumindo um papel relevante na dinâmica económica local e na ligação entre zonas de difícil acesso.
O papel social e económico dos mototáxis
Por sua vez, o sociólogo Agostinho Paulo defende uma maior atenção das autoridades ao sector dos mototaxistas, considerando que a actividade desempenha um papel importante na mobilidade urbana e na geração de emprego para milhares de jovens.
Segundo o especialista, ignorar a importância deste segmento seria desconsiderar uma das actividades económicas que mais oportunidades tem proporcionado a cidadãos que enfrentam dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho.
O sector dos mototáxis tornou-se uma importante fonte de rendimento para inúmeras famílias angolanas, contribuindo para a redução do desemprego e para o fortalecimento das economias locais, especialmente nas áreas onde os transportes públicos ainda são insuficientes.
Formalização e formação como caminhos para o futuro
O especialista entende que a formalização, a formação contínua e a criação de mecanismos eficazes de controlo podem ajudar a separar os profissionais que exercem a actividade de forma legítima daqueles que recorrem às motocicletas para a prática de crimes.
A profissionalização do sector surge cada vez mais como uma necessidade estratégica para garantir maior segurança rodoviária, proteger os passageiros e reforçar a confiança da população nos serviços prestados pelos mototaxistas.
Especialistas defendem ainda a criação de programas de certificação profissional, campanhas nacionais de educação rodoviária e parcerias entre o Estado, associações e instituições de ensino para melhorar a qualificação dos operadores.
Conclusão
O crescimento do sector dos mototáxis em Angola demonstra a sua importância para a mobilidade urbana e para a criação de oportunidades de emprego. Contudo, os desafios relacionados com a formação, o conhecimento do Código de Estrada, a fiscalização e a identificação dos operadores continuam a exigir respostas concretas.
A aposta na capacitação profissional, na formalização da actividade e no reforço dos mecanismos de controlo poderá contribuir para um sector mais organizado, seguro e valorizado. Ao mesmo tempo, permitirá proteger os profissionais sérios e combater práticas ilegais que prejudicam a imagem de uma actividade que se tornou indispensável para milhares de cidadãos angolanos.
Por João Bartolomeu Callawey
Investigador independente da cultura linguística angolana e comunicação digital.
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